Vamos ler e ler para não corrompermos ainda mais nossas mentes com discursos pagos, calculistas e ignorantes!
27/05/2011 – Fonte: Comunicação Artigo
O leitor me responda uma coisa: você já ouviu um biólogo dizer que uma maçã está errada? Já ouviu um astrônomo dizer que o Sol não existe? Mas certamente você já ouviu que determinada forma de falar está errada, ou não existe, mesmo que você já a tenha lido e ouvido milhões de vezes, da mesma forma que você já viu o Sol e uma maçã. O Sol e a maçã existem, mesmo que eu não goste deles. Então não tomo sol e como outras frutas, mas não posso condenar as pessoas que adoram se bronzear ou são fanáticas por maçãs! O mesmo se dá com os fatos linguísticos. “Nós pega o pexe” é um fato, goste dele ou não. Da mesma forma que os demais cientistas, um linguista jamais dirá que esse fato é errado ou feio. A imprensa brasileira fez, nesta última semana, verdadeiro estardalhaço a respeito do livro Por uma vida melhor, escrito pela professora Heloísa Ramos, e indicado pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Todos os grandes jornais e revistas que circulam pelo país se manifestaram veementemente contra o livro (e, por extensão, contra a equipe do MEC e o Ministro Fernando Hadad), abrindo espaço para o posicionamento de vários “especialistas”: membros da ABL, professores que ganham a vida ditando regrinhas na TV ou em colunas de jornais, autores de manuais de redação e estilo… Curiosamente, nenhum linguista foi chamado por esses mesmos canais de comunicação para dizer o que pensa. Sobre esse assunto, Marcos Bagno, um dos vários linguistas que não têm sequer uma linha de espaço na imprensa brasileira quando o assunto é justamente língua, escreveu um belo artigo em seu site (www.marcosbagno.com.br) que se inicia da seguinte maneira: “Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.” O livro de Heloísa Ramos é um dos poucos que, de forma científica – e consequentemente isenta de preconceitos e de zombaria -, descreve uma forma de falar que permite aos alunos e alunas provenientes das “classes populares” se reconhecerem no material didático e perceberem que a maneira como falam não é errada ou feia, mas diferente daquilo que a tradição normativa tenta preservar a qualquer custo. Em nenhum momento a autora propõe que o estudante saia falando “nois pega o pexe” a torto e a direito. O que ela faz, com invejável lucidez, é defender o respeito á variedade linguística, deixando claro que o falante tem todo o direito de, conhecendo as várias formas de manifestação linguística, escolher aquela que ele achar adequada a determinada situação de fala, arcando com os julgamentos sociais que isso acarreta. Ela, assim como qualquer cientista da língua, jamais defendeu a ideia de que os usuários das variedades linguísticas estigmatizadas devam permanecer excluídos do acesso às variedades cultas; ao contrário, todos concordamos que a escola tem o dever de introduzir o estudante ao mundo da cultura letrada e dos discursos que essa cultura letrada aciona. A escola precisa ensinar aquilo que ele não sabe, mas não pode desprezar aquilo que ele conhece e, muitas vezes, prefere. É por essa razão que, apesar de eu não gostar, eu sei que Sol e maçãs fazem bem à saúde. Alguns cientistas, via escola, já me ensinaram isso. Então, quando eu preciso e quero tomar um pouco de sol ou comer maças, sei como, onde, quando e por que fazê-lo.
Clarice Assalim é Doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo – USP. Docente nos cursos de graduação do Centro Universitário Fundação Santo André – Autora dos livros “Afinal, estamos de Acordo! – O (novo) Acordo Ortográfico”, e “A Leitura como Ofício – Volume I” e “A Leitura como Ofício – Volume II” pela editora Porto de Idéias.